
VALOR ECONÔMICO
Sexta-feira, 27-Dez-2002
Caramuru desafia força das
múltis
Inaê Riveras, De São Paulo
A
Caramuru Alimentos, maior processadora de soja de capital nacional,
lança hoje a pedra fundamental de uma nova esmagadora,
em Ipameri, no sudeste de Goiás. A fábrica, a terceira
da empresa, deve receber investimentos de R$ 60 milhões
até 2004, quando entra em atividade.
Com a nova planta, a Caramuru agregará 2 mil toneladas
à sua capacidade instalada de moagem, que sobe para 5,5
mil toneladas diárias. O processamento no ano passará
de 1,15 milhão de toneladas para 1,8 milhão.
O investimento inclui ainda a instalação de uma
unidade de recebimento, com capacidade para 80 mil toneladas estáticas.
Segundo o vice-presidente da Caramuru, Cesar Borges, a fábrica
atenderá tanto o mercado regional quanto o exterior. Está
previsto o escoamento diário por ferrovia até Vitória
(ES) e Santos (SP) de 1,5 tonelada de farelo. Parte da produção
de óleo bruto, por sua vez, será destinada à
refinadora de Itumbiara (GO), que também receberá
aportes. Serão aplicados R$ 8 milhões na duplicação
da linha de envase de óleo refinado em embalagens PET,
para 12 mil toneladas por mês.
Borges afirma que o projeto ganhou força com as concessões
fiscais oferecidas pelo governo goiano. Goiás é
um dos Estados que mais têm atraído investimentos
no setor. Nos últimos dois meses, Cargill e Comigo anunciaram
a instalação de novas fábricas no Estado.
O novo investimento da Caramuru - que este ano deve faturar mais
de R$ 1,1 bilhão - reforça a trajetória sem
precedentes de uma empresa de capital nacional no processamento
de soja. Na última década, a entrada mais agressiva
das multinacionais contribuiu para o fechamento de várias
empresas brasileiras.
"Somos agressivos com conservadorismo. Investimos, mas sempre
cuidando da área financeira", diz Borges, que prefere
buscar financiamentos que não sacrifiquem o capital de
giro e façam com que o resultado da operação
seja suficiente para quitar seu próprio custo de instalação.
"Em 1995 construímos nossa última fábrica
e vimos que seria mais importante investir em logística.
Então ocupamos capacidade ociosa, consolidamos as operações.
Soubemos parar", diz.
Outras desvantagens frente às multinacionais, enumera Borges,
são o custo do capital - importante no mercado de soja
uma vez que é a indústria a maior financiadora do
plantio - e a falta de visão mais ampla do que ocorre no
mercado mundial, por não operar em outros países.
Para compensar, Borges procura manter a empresa enxuta e ágil.
"A decisão de investimento é rápida;
não dependemos de matriz", afirma.
Essa característica, segundo ele, foi determinante para
que o grupo expandisse sua atuação no Centro-Sul
"quando ainda não existia ninguém de porte
por lá".
Fundada em 1964, em Maringá (PR), a Caramuru inaugurou
no início dos 70 uma processadora de milho em Itumbiara
(GO) e outra, voltada à extração de óleo
bruto do gérmen de milho, em Apucarana (PR). A primeira
unidade de óleos vegetais foi construída em Itumbiara,
em 1986. Em 1992, a unidade ganhou uma refinaria; quatro anos
depois, foi construída a esmagadora de São Simão
(GO) e, posteriormente, a unidade de girassol. "Eles foram
para a origem, investiram em tecnologia e logística, um
aspecto muito importante num mercado de reduzidas margens",
observa Renato Sayeg, da Tetras Corretora. Entre os principais
investimentos em logística estão o terminal em Pederneiras
(SP) e dois terminais em Santos.