GIRASSOL APROVADO COMO SILAGEM OU FARELO

Planta versátil e resistente, o girassol se mostra como boa opção de cultivo na safrinha, para a produção de silagem. Já o farelo, como fonte de proteínas, ajuda a reduzir os custos do concentrado

Do girassol, tudo se aproveita: da beleza das flores, passando pelas sementes, que dão óleo e subprodutos, como o farelo; à planta toda, na produção de silagem; e até as raízes, que ficam no solo, como adubação orgânica. A pecuária brasileira já descobriu isso, e muitos criadores passaram a variar o uso da planta na dieta animal. "A novidade mais recente é o farelo de girassol, como fonte de proteína no concentrado, à medida que sua oferta aumenta no mercado, em razão da crescente produção de girassol para extração do óleo", anuncia Luiz Gustavo Ribeiro Pereira, professor de Bovinocultura e Nutrição Animal, na Universidade Estadual Santa Cruz, em Ilhéus-BA.

No uso tradicional, a planta continua a ganhar destaque para silagem, como referência ligada à maior resistência à seca, ao frio e ao calor, em relação às culturas tradicionalmente empregadas como alimentos conservados, segundo Thierry R. Tomich, pesquisador da Embrapa Pantanal, de Corumbá-MS. "É ideal para condições climáticas que restringem o rendimento de culturas, como milho ou sorgo", explica. Além disso, costuma indicar o uso do girassol como cultura de safrinha, maximizando o uso da terra e otimizando a utilização das instalações e implementos.

"Embora existam relatos de produtividade de até 70 t/ha de silagem de girassol, o comum em período de safrinha é um rendimento de cerca de 30 t/ha, com 8 t/ha de matéria seca", cita. As vantagens do girassol não param por aí. Pereira observa que em relação ao seu valor nutritivo o girassol também merece destaque. Sua silagem apresenta teores mais elevados de proteína, minerais e extrato etéreo (óleo), quando comparada às silagens de milho e de sorgo. "Ao ser usada em dietas balanceadas, representa uma vantagem econômica, pois os nutrientes podem ter seu fornecimento reduzido no concentrado", analisa.

Explica ainda que a menor digestibilidade de suas fibras, que restringe o aproveitamento da energia disponível nessa fração, pode ser compensada com uma dieta adequadamente balanceada. "O menor aproveitamento da energia disponível na fração fibrosa da silagem de girassol pode, de certa forma, ser compensada pelo maior conteúdo de óleo", considera. Ante essas características, o emprego da silagem de girassol é viável para todo pecuarista que já produz ou trabalha com silagem. "Para a produção desse volumoso, as instalações e os implementos utilizados para sua produção, seu armazenamento e fornecimento são os mesmos empregados para a cultura do milho ou do sorgo", diz ele.

Como o custo de produção tem a ver com a produtividade da cultura, o girassol de safrinha tem proporcionado uma silagem de custo inferior ao do milho-safrinha. "Uma simulação feita recentemente pelo professor Lúcio Carlos Gonçalves, da Universidade Federal de Minas Gerais mostra que o uso da silagem de girassol para vacas com produção média de 20 kg de leite por dia pode representar uma redução no custo de uma dieta corretamente balanceada de cerca de 25% e 35%, quando comparado ao uso de silagens de milho e de capim-elefante, respectivamente", ilustra Tomich.

ÉPOCA DE PLANTIO DEPENDE DA REGIÃO - Dependendo da exigência nutricional do animal, a silagem do girassol pode ser fornecida como fonte única de volumoso. Deve ser usado com restrições para animais com menos de seis meses de idade, já que se trata de volumoso com fibra de baixa digestibilidade. Para vacas com alto potencial de produção, acima de 8.000Kg por lactação, a silagem de girassol tem sido indicada como forragem para o meio e final de lactação, por imprimir maior ganho de peso aos animais nesse período em que se deseja recuperar a condição corporal. É importante que o nível de óleo na dieta total não ultrapasse o limite máximo de 8% da matéria seca. Tanto as cultivares desenvolvidas para a produção de óleo, que contêm de 35 a 45% de óleo no grão, quanto as cultivaras chamadas de variedades confeiteiras (com menor teor de óleo) têm sido utilizadas na confecção de silagem. O cultivo do girassol exige solos corrigidos, profundos, férteis, planos e bem drenados. Ele é sensível à acidez do solo e nutricionalmente é tão exigente quanto o milho, o que torna indispensável a análise do solo, para sua correção e adubação adequadas. Pereira chama a atenção para o seguinte aspecto: apesar de ser pouco exigente em boro, o girassol tem dificuldades em sua absorção, sendo sensível aos seus baixos níveis no solo.

Para evitar problemas no desenvolvimento da planta, recomenda- se a pulverização de boro nas plantas até trinta dias após a emergência, na base de 1,5 a 2 kg/ha de borax, diluído em cerca de 300 litros de água. A densidade de plantio é decisiva no rendimento da cultura e deve variar entre 40.000 a 45.000 plantas/ha, dependendo do genótipo utilizado. O espaçamento entre linhas varia de 80 a 90 cm para a colheita com plataformas de milho. A época de semeadura depende das características climáticas de cada região. Por exemplo, o período mais indicado para o plantio, nos estados de Minas, Goiás e São Paulo, se estende de janeiro a meados de março, enquanto no Paraná, do início de agosto a meados de outubro. Tomich chama a atenção para a importância da época de corte, que é um fator fundamental para a obtenção de uma boa silagem de girassol. "Muitas vezes, os produtores ensilam antes da época ideal, com a planta apresentando alto conteúdo de umidade, o que prejudica a fermentação no silo e a conservação do valor nutritivo da forragem", alerta, orientando que o correto é quando a planta se encontra no estádio de maturação fisiológica, chamada de fase reprodutiva R9. Nessa fase, o teor de MS está entre 26% e 30%, o que estimula a ação das bactérias produtoras de ácido lático e inibe a ocorrência de fermentação indesejável, favorecendo a conservação da silagem.

Na fase R9, a parte posterior do capítulo está amarelada e a maior parte das folhas já está seca. Para os genótipos precoces, essa fase ocorre por volta de 85 dias após a emergência; para os de ciclo tardio, cerca de 110 dias após. Para a colheita, podem ser utilizadas as mesmas máquinas de ensilagem do milho e do sorgo, devidamente reguladas para o espaçamento de plantio do girassol. O tamanho das partículas deve ser uniforme, sendo recomendado o mesmo tamanho utilizado para milho e sorgo: 1,5-2,0 cm. Assim como acontece com qualquer outro material a ser ensilado, deve-se fazer o enchimento, a compactação e a vedação do silo o mais rápido possível, de forma a evitar perda do valor nutritivo da forragem.

FARELO: OPÇÃO PARA REDUZIR CUSTO - Com uma oferta cada vez maior no mercado, graças à expansão da cultura para ex tração do óleo das sementes, o farelo de girassol, como fonte protéica e energética (72% de nutrientes digestíveis totais - NDT), apresenta- se como uma alternativa bastante interessante como substituto do farelo de soja na ração de bovinos. "Sua maior oferta no mercado ocorre justamente no momento em que o farelo de soja é menos ofertado e tem seu preço elevado", assinala Hélio Yoshiaki Hishinuma, coordenador técnico de Vendas para Consumo Animal da Caramuru Alimentos.

Ele explica ainda que o teor de nutrientes do farelo de girassol varia segundo o processo da extração do óleo e da quantidade de casca presente. A proteína é a principal referência para o emprego desse farelo, com seus níveis variando entre 28% e 42%, extensivamente degradada no rúmen. O professor Pereira assinala que, independentemente dessa variação, o farelo de girassol constitui uma excelente fonte protéica para os bovinos. "O teor de fibra bruta varia de forma inversa ao conteúdo de proteína. O cálcio, com 0,4%, e o fósforo, com 1,0%, apresentam níveis satisfatórios", diz ele.

Hishinuma explica que, para o gado leiteiro, o farelo de girassol é recomendado apenas para vacas que produzem até 20 kg de leite por dia. As vacas que produzem maior quantidade precisam de alimentação mais energética, como o próprio grão dessa oleaginosa. O farelo de girassol pode compor a dieta de bovinos de leite e de corte, em todas as categorias, desde que balanceado corretamente com os demais ingredientes. No entender de Pereira, em face dessas possíveis variações na composição, é recomendável que seja feita análise do material antes do balanceamento da ração. A recomendação de uso sugerida para bovinos de leite é de 20% do concentrado.

Segundo o coordenador técnico, o farelo de girassol está disponível no mercado durante o ano todo, com predominância após a colheita da safrinha, nos meses de junho/julho. "É nesse período que o farelo de girassol prevalece como ingrediente alternativo do farelo de soja, com um custo bastante interessante para o produtor: entre 45 e 50% mais barato do que o farelo de soja e cerca de 10% mais barato que o farelo de algodão", cita. Além disso, o farelo de girassol também vem sendo empregado com vantagem no preparo de sal proteinado, em substituição ao farelo de soja, permitindo uma expressiva redução de custo.

Como ingrediente do concentrado, complementando o volumoso, pode-se empregar entre 1,5 a 3 kg/vaca/dia, dependendo de sua produção. O farelo de girassol pode ser estocado por até seis meses, desde que em local apropriado, com boa aeração, seco e limpo. O Brasil produz cerca de 70 mil t/ano de farelo de girassol, oriundas do esmagamento da semente de girassol para extração do óleo. A Caramuru, que detém cerca de 60% da produção de girassol, está localizada em Itumbiara e fornece farelo de girassol para vários estados.